
~#Edgar Allan Poe#~
19*01*1809 - 07*18*1849
Edgar Allan Poe nasceu em Boston, USA, em 1809 de um casal de atores fracassados. Órfão aos dois anos foi adotado por um rico comerciante viajou muito, assim recebendo esmerada educação clássica. em 1826 foi para a universidade de Virgínia, estudando grego, latim, francês, espanhol e italiano, mas logo acaba abandonando os estudos por causa do vicio no jogo.
No ano seguinte publica "Tarmelião" e outros poemas, e, em 1829 um novo volume de poesias: "Al Araaf" e poemas menores. Ingressa na West Point, mas é expulso por faltar as aulas. Dedica-se então à literatura, numa vida nômade e inconstante.
Em 1831 publica Poemas; em 1833 com "Manuscrito Encontrado numa Garrafa" ganha o prêmio de 50 dólares e torna-se redator e editor do Literary Messenger mas é demitido por abuso de bebida. Em 1838 trabalha como editor no Button's Gentlemem Magazine e escreve "A Queda da Casa de Usher", e "Contos do Grotesco e do Arabesco".
Em 1840 demite-se e em 1841 passa a editar Grahan's Magazine, onde escreve seu primeiro romance policial "Crimes da Rua Morgue" e "O Escaravelho de Ouro" que lhe dá um prêmio de 100 dólares e muito prestígio e publicidade e em 1848 escreve "A Balela do Balão" e torna-se subeditor do Evening Mirror, onde publica sua obra máxima o poema "O Corvo".
Edgar Allan Poe morreu em 1849 em plena miséria, mas se tornou imortal nos seus contos e poemas que ainda assombram e dão inspiração a inúmeros seguidores desse mestre do soturnismo...
R.Raven
~#ANNABELL LEE#~
Há muitos, muitos anos, existia
num reino a beira - mar.
Uma virgem que bem se poderia
Annabel Lee chamar.
Amava-me, e seu sonho consistia
Em ter-me para amar.
Eu era criança ela era uma criança
no reino a beira-mar:
mas nosso amor chegava , ó Annabel Lee
o amor a ultrapassar,
amor que os próprios serafins celestes
vieram invejar.
Foi por isso que há muitos, muitos anos,
no reino à beira-mar
de uma nuvem soprou um vento e veio
Annabel Lee gelar.
E seus nobres parentes se apressaram
em de mim a afastar,
para encerra-la em uma sepultura,
no reino a beira-mar.
Os anjos, que não eram tão felizes,
nos vieram a invejar.
Sim! Foi por isso(como todos sabem que no reino à beira-mar)
que um vento veio, à noite, de uma nuvem
Annabel Lee matar.
Mas nosso amor o amor dos mais idosos,
de mais firme pensar
podia ultrapassar.
E nem anjos que vivam nas alturas,
nem demônios do mar,
Jamais minha alma da de Annabel Lee
poderão separar
Pois, quando surge a lua, há um sonho que flutua,
de Annabel Lee, no luar;
e, quando se ergue a estrela o seu fulgor revela
de Annabel Lee o olhar;
assim, a noite inteira, eu passo junto a ela,
a minha vida, aquela que amo, a companheira,
na tumba a beira-mar,
junto ao clamor do mar.
~#O VALE DA INQUIETUDE#~
Dantes, silente vale sorria.
Era um vale onde niguèm vivia,
Haviam todos partido em guerra
deixando os doces olhos de estrelas
noturnamente velarem pelas
flores formosas daquela terra,
em cujos braços, dia após dia,
a luz vermelha do sol dormia.
Não há viajante que, hoje não fale
sobre a inquietude do triste vale.
Lá, agora, tudo é só movimento,
exceto os ares, pesando, adustos,
nas soledades de encantamento.
Ah! Nenhum vento move os arbustos
que vibram como as ondas geladas.
Em Torno às Hé bridas enevoadas!
Ah! Nenhum vento essas nuvens guia,
murmurejantes, nos céus insanos,
e que se arrastam, por todo o dia,
sobre violetas, que alguem diria
serem milhares de olhos humanos,
e sobre lírios, de haste pendida.
tremendo; e sempre caem, com o perfume,
gotas de orvalho do flóreo cume;
chorando; e desce, nas hastes frias,
um pranto eterno de pedrarias.
~#SÓ#~
Não fui na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam,
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
E era o outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
ASSIM, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpada montanha,
do solque todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o cêu inteiro incendiaram;
e do trovão,da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do cèu puríssimo
como um demônio, ante meus olhos.
~#SILÊNCIO#~
Há qualidades incorpórias, de existência
dupla, nas quais segunda vida se produz,
Como a entidade dual da matéria e da luz,
de que o sólido e a sombra espelham a evidência
Há pois, duplo silêncio; o do mar e o da praia,
do corpo e da alma;um mora em deserta região
que erva recente cubra e onde, solene, o atraia
lastimoso saber; onde a recordação
O dispa de terror;seu nome é "Nunca mais";
é o silêncio corpóreo.A esse, não temais!
Nenhum poder do mal ele tem. Mas, se uma hora
Um destino precoce (oh! destinos fatais!)
vos levar às regiões soturnas, que apavora
sua sombra, elfo sem nome, ali onde humana palma
jamis pisou, a Deus recomendai vossa alma!
~#O CORVO#~
~#THE RAVEN#~
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais, E já quase adormecia, ouvi o que parecia O som de alguém que batia levemente a meus umbrais. "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais. É só isto, e nada mais.
" Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais. Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais - Essa cujo nome sabem as hostes celestiais, Mas sem nome aqui jamais! Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais! Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo: "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais; Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais. É só isto, e nada mais.
" E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante, "Senhor", eu disse, "ou senhora, de certo me desculpais; Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais, Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais. Noite, noite e nada mais. A treva enorme fitando, fiquei perdido receando, Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais. Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita, E a única palavra dita foi um nome cheio de ais - Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais, Isto só e nada mais.Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo, Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais. "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela. Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais. Meu coração se distraia pesquisando estes sinais. É o vento, e nada mais." Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça, Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais. Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento, Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais, Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais. Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura Com o solene decoro de seus ares rituais. "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado, Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais! Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais." Disse o Corvo, "Nunca mais". Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro, Inda que pouco sentido tivessem palavras tais. Mas deve ser concedido que ninguém terá havido Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais, Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais, Com o nome "Nunca mais".
Mas o Corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto, Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais. Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento, Perdido murmurei lento. "Amigos, sonhos - mortais Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais." Disse o Corvo, "Nunca mais". A alma súbito movida por frase tão bem cabida, "Por certo", disse eu, "são estas suas vozes usuais. Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono Seguiram até que o entorno da alma se quebrou em ais, E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais Era este "Nunca mais"
. Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura, Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais; E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais, Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais, Com aquele "Nunca mais". Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo À ave que na minha alma cravava os olhos fatais, Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais, Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais, Reclinar-se-á nunca mais! Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais. "Maldito", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais, O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!" Disse o Corvo, "nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! - Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais, A este luto e este degredo, e esta noite e este segredo A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!" Disse o Corvo, "Nunca mais". "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! - Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais, Dize a esta alma entristecida, se no Éden de outra vida, Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais, Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!" Disse o Corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo", eu disse. "Parte! Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais! Não deixes pena que ateste a mentira que disseste! Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais! Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!" Disse o Corvo, "Nunca mais". E o Corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda, No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais. Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha, E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais. E a minh'alma dessa sombra que no chão há de mais e mais, Libertar-se-á... nunca mais!
Edgar Allan Poe